Por essa razão não defendo, e muito menos sou contra, o principio do utilizador pagador. Reconheço que idealmente quem utiliza deve pagar, mas a verdade é que o país padece de forma tão grave de assimetrias, principalmente, económicas, que a pratica deste principio apenas agrava essa situação.
Reconheço por outro lado, que o país que temos não tem capacidade para ter um encargo anual 800 milhões de Euros e a subir (pelo que ouvi) com auto-estradas. Na verdade, nem tem capacidade nem necessidade de possuir tanta Scut pois nem todas servem regiões que estão no prato mais baixo no que toca ao desenvolvimento económico das diversas regiões do país.
Parece-me que o governo a principio tinha esta mesma percepção, no entanto e depois do PSD de Pedro Passos Coelho ter tido a peregrina ideia de aplicar cegamente o critério do utilizador pagador, teremos portagens em todas as Scut.
Ora, como eu disse acima, nada na vida é a preto e branco e não creio que nenhum ser humano use talas ao ponto de não conseguir ter a perspicácia de observar a realidade do nosso país, pelo que a aplicação cega, sem mais nenhuma medida que altere a realidade que em seguida passarei a descrever, apenas pode constituir uma acção motivada por interesses que desconheço. Ou não...
Primeiro, existem Scut's que foram dimensionadas para um nível de tráfego bastante superior ao verificado na actualidade. E não estamos a falar na capacidade para a qual estas vias foram pensadas, mas sim, nas previsões de tráfego para o presente que estão muito acima do assinalado. Logo, e como, pelo que sei, a quantia gasta pelo estado nas Scut's tem por base estas previsões, não será o facto da aplicação de portagens que levará a que este encargo desapareça na totalidade ou perto disso. Aliás, segundo os critérios internacionais em vigor na UE, os quais não podem nem devem ser aplicados cegamente, vias como a A24 não têm razão de ser tendo em conta o tráfego previsto para a mesma antes desta ser construída.
Segundo, existem auto-estradas cuja existência não se entende. Por exemplo como é que existem duas auto-estradas com percursos paralelos em toda a extensão entre Lisboa e o Porto, sendo que por vezes estas são quase visíveis entre si. Distritos como Aveiro, Leiria e boa parte dos de Lisboa e Porto não necessitavam de uma segunda auto-estrada.
Terceiro, numa altura em que parece estar a nascer a terceira auto-estrada entre Lisboa e o Porto, o distrito de Bragança ainda não tem 1 km de auto-estrada. O pior é que se calhar este facto não é o mais preocupante, mas sim o estado em que boa parte das estradas desse distrito se encontra...
Em quarto lugar, com a construção das Scut's, milhares de pessoas passaram a ter a possibilidade, mesmo morando relativamente longe de um centro urbano, de obter um emprego em empresas que não se instalam no interior. Aliás, muitas destas pessoas nunca teriam tido a possibilidade de encontrar um emprego sem saírem das suas terras. Com as Scut's foi possível a pessoas que moram em aldeias perdidas no meio do nada trabalhar a 40, 50, 60 ou até 70 kms de casa. Com o fim das Scut's estas pessoas terão em mãos um dilema: manter a sua residência na terra onde nasceram ou vivem actualmente ou manter este ou outro emprego qualquer e ter que transformar-se em mais um (e)migrante, agravando a desertificação do interior.
Quinto: se existem Scut's que estão dentro de zonas servidas por transportes públicos de qualidade, a verdade é que quem é servido por vias como a A24 (no interior por assim dizer) não tem qualquer alternativa à utilização do seu automóvel. Falando do caso especifico de Castro Daire(onde moro), são centenas os castrenses que trabalham a 40km em Viseu, no entanto, estas pessoas não têm transportes públicos alternativos ao seu automóvel.
Sexto: Empresas como a ANA, Metro de Lisboa, Metro do Porto, CP, Carris, entre outras, são altamente deficitárias em termos financeiros. Estas empresas prestam serviços de qualidade aos seus utentes, sendo que os seus utilizadores, embora pagantes, não cobrem todas as despesas dessas mesmas empresas.
Sétimo: várias são as vias com traçados semelhantes ao de uma auto-estrada que não são pagas pelos seus utilizadores nem têm o estatuto de SCUT.
Assim, e tendo em consideração o exposto, sou completamente a favor de que os utilizadores de vias como a A24, a maior parte da A25, A23 entre outras, paguem pela sua utilização quando:
1 - Os habitantes destas regiões interiores tenham acesso a transportes públicos com a mesma qualidade do que os habitantes da grande Lisboa e grande Porto.
2 - Os utentes/clientes de empresas como a ANA, CP, Carris, Metro do Porto, Metro de Lisboa paguem por inteiro o prejuízo que estas empresas acumulam todos os anos e que, não sendo eu delas utente, tenho que pagar através dos meus impostos...
3- Quando vias como o IC19, primeiros kms da A1, A2, entre outros, tenham portagens... Se o IC19 está constantemente engarrafado eu não tenho culpa... Utilizem os comboios da CP que eu de qualquer forma já ajudo a pagar sem utilizar! Era o que eu faria, se por aqui existissem comboios.
Se estas três condições forem cumpridas eu sou o primeiro a fazer uma manifestação para que as vias que eu referi em cima passem a ter portagens! Até lá, não nos tratem como lixo.
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